Quando se fala em hiperconectividade de crianças e adolescentes, a preocupação com o que se consome é somada aos questionamentos do tempo que se passa em frente às telas.
As preocupações são válidas. A hiperconectividade dos jovens vem moldando os comportamentos e o excesso pode se tornar vício.
Desde 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o vício em telas como um transtorno. A dependência tem o nome de Nomofobia, com origem da frase em inglês no mobile phone phobia e se refere ao medo incontrolável de ficar sem celular ou sem algum acesso digital.
A formação de um vício acontece com base na ativação de um neurotransmissor chamado de dopamina, conhecido como hormônio do prazer, uma substância química que o cérebro libera quando há uma experiência prazerosa e recompensadora.
Essa compulsão, que está mais presente em adolescentes e jovens adultos, tem semelhança a outros vícios. Sintomas como irritabilidade, falta de foco, ansiedade e uma necessidade de se manter conectado podem ser indícios.
No entanto, antes de desencadear algum sintoma, é possível analisar e entender como está sendo esse uso de telas e identificar a presença ou não da dependência.
Os usos de telas não são iguais, alguns são mais prejudiciais que outros. Por isso, o EducaMídia mapeou esses tipos:
- Uso passivo: encontra-se na rolagem de tela nos feed, nos inúmeros vídeos assistidos e nas maratonas de séries e filmes nos streamings. Essa prática é bastante comum para ocupar um tempo ocioso ou quebrar o gelo em alguma situação. Acontece que é preciso ficar atento aos sinais de uso excessivo, como: irritação, dificuldade para dormir e falta de concentração.
- Uso social: visto como a maneira de manter laços e conexões com o outro. Nesse sentido, esse uso se refere ao contato em redes sociais, chamadas de vídeos, quando não é possível estar junto pessoalmente, assistir algo em companhia ou jogar com outras pessoas.
- Uso da tela do lado: aqui, os usuários mantêm uma tela ao lado enquanto estão fazendo alguma atividade offline ou analógica. Cozinhar enquanto assiste ao vídeo da receita, por exemplo. Em outros contextos, o uso de uma tela ao lado pode se tornar uma distração, como trocar mensagens enquanto estuda.
- Uso criativo: nesse modo, a tela é usada como ferramenta de criação e produção de algo.
- Uso para jogos: jogar pode ser motivo de distração e diversão, mas, assim como os outros usos, é preciso estar atento porque pode consumir boa parte do tempo do usuário.
O tempo de tela tem relação direta com a saúde mental e as redes sociais são as ferramentas que afetam negativamente estas condições.
De acordo com a pesquisa Panorama Mental 2024, idealizada pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, 45% dos brasileiros têm essa afirmação em relação às redes.
É importante lembrar que as causas de problemas de ordem psicológica e emocional podem ser variadas e, para cada caso, é preciso investigar.
Alguns fatores relacionados às redes sociais e que podem prejudicar a saúde mental são:
- O excesso de exposição a notícias ruins: receber informações dessa natureza o tempo inteiro pode provocar ansiedade e desencadear em uma possível depressão visto que o usuário conectado não enxerga outras possibilidades, mas apenas aquela situação.
- Comparações: o mundo das redes sociais é um recorte da realidade. Acompanhar a rotina de outras pessoas, que geralmente são boas e divertidas, desperta diferentes tipos de comparação, seja pelo estilo de vida, oportunidades ou pela aparência física, que acaba sendo mais comum no caso das meninas.
- Isolamento social: passar muito tempo online pode nos afastar das interações sociais presenciais, evitando sair ou comparecer a eventos, por exemplo. Essa exclusão pode levar à solidão, dificuldade de comunicação e problemas de relacionamento
A hiperconectividade, em muitos casos, tem influenciado nesses sintomas e também resultado em um cansaço mental. Não é atoa que a palavra eleita do ano de 2024 foi Brain Rot ou, traduzindo, apodrecimento cerebral.
De acordo com o dicionário de Oxford, a definição se resume à “deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa como resultado do consumo excessivo de material (particularmente conteúdo online) considerado trivial ou pouco desafiador”.
No livro A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais, o autor e psicólogo Jonathan Haidt afirma que ao conversar com pais de adolescentes, as principais queixas são sobre o uso de smartphones e jogos online.
“O que há é uma preocupação constante de que o que está acontecendo não é natural, e os filhos estão perdendo alguma coisa – na verdade, quase tudo – por causa das intermináveis horas que passam na internet”, afirma o autor que também salienta o aumento de casos depressivos em adolescentes americanos por volta de 2012.
No livro, Haidt também destaca a superproteção dos pais e a liberdade para utilizar as plataformas digitais como um fator que impulsiona o desenvolvimento de uma geração ansiosa.
Uma das grandes pautas para discussão é sobre o momento ideal em que adolescentes já podem ter o seu próprio celular, visto que hoje muitos já têm acesso às plataformas digitais e isso pode prejudicar o desenvolvimento
O acesso a tecnologia e aos recursos no mundo virtual são benéficos. Porém, quando usado de forma excessiva e sem as devidas precauções, também podem ser prejudiciais.
O cuidado com a hiperconectividade merece atenção, principalmente nas fases de desenvolvimento, como é o caso de crianças e adolescentes. Preste atenção na sua rotina em frente às telas, analise os sintomas e preze pela sua saúde mental.



