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Janeiro Branco: o que fazer pela saúde mental em 2026?

Criada em 2014, a campanha Janeiro Branco tem o objetivo de conscientizar e promover a saúde mental.  A escolha do mês é estratégica. No início…

Criada em 2014, a campanha Janeiro Branco tem o objetivo de conscientizar e promover a saúde mental. 

A escolha do mês é estratégica. No início do ano, as pessoas estão mais propensas a pensarem na vida, avaliarem sentimentos e ações e estipularem metas para os meses seguintes.

A campanha, idealizada pelo psicólogo Leonardo Abrahão em 2014, ganhou ainda mais visibilidade em 2023, quando foi reconhecida como Lei Federal. A partir daí, tornou-se uma das principais iniciativas de conscientização sobre saúde mental do Brasil. 

E a temática continua em destaque, nos últimos anos, esse foi um dos assuntos que deixou os brasileiros mais preocupados. De acordo com o levantamento Ipsos Health Service Report 2025, a saúde mental se tornou o principal problema de saúde para 52% dos brasileiros. Em 2018, o número correspondia a 18%.

Outro indicador aponta o cenário do trabalhador. Em 2024, mais de 470 mil brasileiros foram afastados do trabalho por conta de transtornos mentais, mostrando como a saúde mental impacta no dia a dia das pessoas e na produtividade emocional. 

Maria Tereza Ramos, psicóloga e Coordenadora Pedagógica da EAI Educa, afirma que o aumento dos casos de afastamentos é um desajuste entre o que o mundo do trabalho exige e o que as pessoas conseguem sustentar.  “Vivemos uma lógica de produtividade constante, de urgência permanente e de disponibilidade sem fim, que pouco considera necessidades humanas básicas como descanso, reconhecimento, pertencimento e segurança emocional”, comenta.

De acordo com ela, na prática clínica e nos estudos da Psicologia do Trabalho e da Saúde, fica evidente que emoções não acolhidas, silenciadas ou tratadas como sinal de fraqueza encontram outras formas de se expressar. Ansiedade, depressão, burnout e sintomas psicossomáticos não surgem do nada, eles são, muitas vezes, a linguagem possível de um sofrimento que não encontrou espaço de escuta. 

“Há também uma dificuldade crescente de reconhecer e respeitar os próprios limites. A cultura do “dar conta de tudo” empurra as pessoas para uma autoexigência constante, em que o cansaço é ignorado e o sofrimento é normalizado. O afastamento do trabalho, nesse contexto, aparece como uma tentativa tardia de autopreservação, quando o corpo e a mente já não conseguem seguir adiante da mesma forma”, afirma Maria Tereza. 

Os três pilares do Janeiro Branco: paz, equilíbrio e saúde mental 

Neste ano, o Janeiro Branco propõe uma desaceleração e ressignificação na maneira de enxergar a saúde emocional no dia a dia.

A paz, quando trata-se de saúde mental, está associada à redução do estado contínuo de alerta, ameaça e urgência. Muitas pessoas vivem em modo sobrevivência, com destaque pelo excesso de estímulo, notificações que não param e cobranças excessivas. 

“Do ponto de vista psicológico, a sensação de paz está profundamente ligada à regulação emocional e à vivência de segurança. No entanto, o estilo de vida atual, marcado por excesso de estímulos, pressão por resultados, comparações constantes e poucas pausas reais, mantém o organismo em estado contínuo de alerta. É como se estivéssemos sempre ligados, antecipando demandas, prazos e expectativas. Esse funcionamento ativa de forma prolongada o sistema de estresse, dificultando o acesso a estados internos como tranquilidade, presença e bem-estar. A mente raramente descansa, ela está sempre ocupada com o que vem depois”, explica Maria Tereza. 

Por isso, a paz não é a ausência de problemas, mas a capacidade de viver no próprio ritmo. Cultivar isso, portanto, envolve criar espaços internos e externos de segurança psicológica, onde seja possível errar, descansar e expressar emoções sem medo de julgamento ou punição. No dia a dia, pode se traduzir na reorganização da rotina, limites e ambientes. É permitir que o corpo desacelere e que a mente não precise estar o tempo todo em defesa.

O equilíbrio, ao contrário do que se possa imaginar, não significa dar conta de tudo, mas reconhecer que nenhuma pessoa sustenta alta performance contínua sem custos emocionais. A ideia de estar sempre disponível e dar conta de tudo tem dado seus efeitos e, em alguns casos, é tratado com naturalidade. 

Buscar equilíbrio exige uma mudança de lógica: sair da ideia de que o valor pessoal está ligado à produtividade constante. Isso implica revisar expectativas, aceitar limites e compreender que os períodos de energia variam ao longo do tempo, ajustando demandas à realidade emocional, física e social de cada momento da vida. Isso envolve aspectos como: pedir ajuda, redistribuir responsabilidade, reconhecer quando algo deixou de ser sustentável e dizer não.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, saúde mental “é um estado de bem-estar mental que permite que as pessoas lidem com os momentos estressantes da vida, desenvolvam todas as suas habilidades, sejam capazes de aprender e trabalhar adequadamente e contribuam para a melhoria de sua comunidade”, sendo assim, ao contrário do que muito pensam, saúde mental não é ausência de doenças, mas ter capacidade de lidar com diferentes experiências.

Na prática, a fragilidade da saúde mental aparece de forma silenciosa, como na dificuldade de concentração, irritabilidade constante, sensação de esgotamento mesmo após o descanso, afastamento social, queda na motivação e aumento de conflitos nas relações. Muitas vezes, essas questões são normalizadas ou tratadas como “parte da rotina”, o que contribui para o agravamento do sofrimento psíquico.

Os sinais de fragilidade emocional aparecem de maneiras diferentes ao longo do desenvolvimento:

• Em crianças, é cada vez mais comum observar dificuldades para lidar com frustrações, baixa tolerância ao erro, explosões emocionais intensas ou, ao contrário, um retraimento excessivo.

• Em adolescentes e jovens, surgem com frequência quadros de ansiedade, sensação de inadequação, medo constante de não corresponder às expectativas e dificuldades de pertencimento.

• Em adultos, aparecem exaustão emocional, irritabilidade persistente, sensação de vazio, dificuldade de estabelecer limites e uma perda gradual de sentido no trabalho e na vida cotidiana.

Maria Tereza explica que as habilidades socioemocionais são fatores importantes de proteção porque ampliam a capacidade das pessoas de reconhecer o que sentem, regular emoções, comunicar necessidades, pedir ajuda e construir relações mais saudáveis. “Desenvolver essas habilidades não elimina os desafios da vida, mas transforma a forma como nos relacionamos com eles. Do ponto de vista psicológico, isso se traduz em mais equilíbrio, mais saúde mental e mais qualidade de vida ao longo de todas as fases do desenvolvimento”, afirma a coordenadora. 

Quando se olha para a paz, equilíbrio e saúde mental de forma integrada, percebe-se que o cuidado com a saúde mental traz o convite a uma mudança na forma de lidar com diferentes aspectos da vida. 

Além disso, a saúde mental não se constrói apenas no nível individual. Ambientes que reforçam a pressão constante, a competitividade excessiva e a falta de escuta tendem a adoecer as pessoas. Por outro lado, contextos que promovem diálogo, reconhecimento, apoio e respeito aos limites funcionam como fatores de proteção emocional. 

Falar sobre saúde mental é reconhecer que viver em constante exaustão não pode ser normal, cuidar da mente é uma escolha cotidiana, sustentada por ambientes que respeitam os limites e a complexidade das pessoas.

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